Direção de modelo em moda e em ensaios comuns são coisas bastante diferentes. Em moda, o cliente – que, geralmente, não é o fotógrafo – apresenta um briefing a alguém que já tem experiência em projetar o corpo e a expressão facial para alcançar um resultado específico. Nesses casos, o ensaio flui sem muitas interferências – afinal, tempo é dinheiro e energia. Em ensaios simples, onde quem posa é alguma amiga ou algum cliente desconhecido, o desafio é muito maior.
Um retrato é sempre uma exposição das interpretações de quem posa. Dependendo do caso, isso ocorre em níveis maiores ou menores de intimidade que, portanto, exigem diferentes táticas de direção. O respeito para com o fotografado, seja ele um modelo profissional, uma celebridade ou alguém da família, é o mesmo; os métodos para conseguir transpor as emoções de cada um é que seguem caminhos diferentes, porque algumas pessoas estão mais acostumadas a estar em frente às câmeras que outras.
Saber comunicar é um dos principais requisitos para um bom fotógrafo. Além de transmitir uma ideia com a própria fotografia, é preciso saber comunicar ao modelo e à equipe envolvida que ideia é essa. De nada adianta elaborar um conceito, montar o esquema de iluminação, colocar alguém sobre a banqueta e esperar o milagre da interpretação perfeita acontecer. Modelos iniciantes e pessoas comuns precisam saber, ao menos, de onde a luz está vindo, qual parte do corpo está sendo fotografada e com qual objetivo.
A interpretação e a produção do ensaio acima foram inspiradas na série Little Adults (“Pequenos Adultos”), da fotógrafa Anna Skladmann, publicada por uma edição da Vogue Kids. Durante a sessão, a revista foi deixada perto da menininha, para que visse ver as fotos e tentasse imitar alguma pose.
Alguns fotógrafos costumam apresentar referências aos fotografados, na intenção de que imitem poses e expressões; recorrer à simulação de movimento, como um pulo ou um jogar de cabelo, para libertar o modelo da timidez; ou simplesmente conversar, descobrir algum gosto em comum e, através disso, tentar estabelecer algum tipo de intimidade, mesmo que passageira.
Richard Avedon, ícone da fotografia de moda e retrato, era também um exímio diretor. Ele não media limites para extrair exatamente aquilo que queria de seus retratados. Como consta em um trecho de seu documentário, Darkness and Light, ele diz para um senhor: “Se este fosse um daqueles momentos em que soubesse que morreria amanhã, você acha que teria feito algo diferente? Porque você não pensa que é isso que vai acontecer?”. Em outro caso, fotografandoWallis Simpson e o príncipe Edward, Avedon soube da paixão do casal por cães e disse a eles que seu táxi havia acabado de atropelar um cachorro. O retrato (abaixo) resultou numa expressão trágica e angustiante, antônima à imagem de alegria que o casal sempre trazia à imprensa. Uma das características comuns do trabalho de Avedon com as celebridades era exatamente essa, a de expô-las a emoções que contradissessem o padrão.
O maior problema de alguém que não sabe dirigir um modelo é a falta de diálogo e vergonha de projetar seu próprio corpo ou rosto na expressão que gostaria de ter. Isso acontece principalmente com alguns homens quando fotografam mulheres: não sabem explicar uma pose e tem receio de parecer femininos demais ao mostrar um exemplo. Fotógrafos precisam ser modelos e atores descarados, sem medo de julgamentos.
Uma das melhores maneiras de estudar direção de modelo é assistir a outros fotógrafos trabalharem, seja ao vivo ou por vídeos de making of. Leandro Neves postou recentemente, em seu blog, um vídeo do ensaio feito com a modelo Manoela Marandino para a revista Vip, que exemplifica exatamente essa necessidade de saber comunicar uma ideia e mostrar uma pose com o próprio corpo. Veja:
Como não é possível escolher todos os clientes, em alguns casos os modelos não atenderão às expectativas, não importa o quão boas sejam as táticas de direção do fotógrafo. Nesses casos, se o conceito não for adaptável (por exemplo: uma marca de roupa solicitou um editorial e o modelo não soube entregar a interpretação exigida pelo briefing – raras vezes acontece, mas acontece), a solução é fotografar o máximo que a energia permitir e ter muitas fotos para selecionar as que mais se aproximam do que foi pedido. E se o cliente for alguém mais simples, sempre é possível sugerir uma nova ideia.
Também é importante saber que toda sessão tem fases de aproveitamento. Num primeiro momento, especialmente se quem estiver posando não for acostumado a isso, as fotos não serão muito aproveitáveis, porque a timidez e o desconforto ainda existirão. Depois do “aquecimento”, em algum momento o fotógrafo fará um retrato lindo seguido de outro – e é preciso estar muito atento para não perder o timing. Depois surgirá um retrato bom entre dez, entre quinze, entre vinte, até que o modelo não tenha energia suficiente para continuar e o fotógrafo esteja esgotado de ideias. Saber quando parar, além de poupar tempo, afasta o mau humor.
Dirigir nada mais é que moldar a relação entre fotógrafo e fotografado para atingir um resultado específico de interpretação. O bom retrato é um encontro das expectativas de quem posa, de quem a pessoa acha que é e de como ela se vê, e de como o fotógrafo faz a leitura daquela personalidade, projetando-a no seu próprio estilo de registrar uma emoção e um momento.
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Dicas práticas:
• Fotografe com a distância focal próxima de 50 mm. Além de evitar distorções na imagem, você manterá uma distância agradável de quem está posando. Não estará muito perto para não parecer invasivo ou causar a sensação de que está ordenando, nem muito longe a ponto de precisar falar gritar para comunicar uma pose ou um gesto.
• Algumas pessoas são pouco confortáveis com a própria aparência, especialmente estando em frente à câmera. Elogie-as durante o ensaio, mas com o cuidado para não exagerar, parecer piegas e arruinar de vez a autoestima.
• Ângulos baixos, com a câmera abaixo do nível da cintura, tendem a alongar o corpo do modelo. Essa técnica não funciona com pessoas muito acima do peso, porque aumenta o corpo e diminui a cabeça, deixando as proporções estranhas.
• Faça uma lista de músicas que influenciem a energia que o ensaio pede. Se possível, tente conhecer o gosto musical do modelo e procurar bandas que gostem em comum para que o ambiente do ensaio seja agradável para ambas as partes.
• Esteja sempre preparado e não fotografe apenas durante o ensaio (mas não seja indiscreto a ponto de incomodar quem está posando). Às vezes, uma grande oportunidade pode surgir num tempo de intervalo para um lanche ou um cigarro.
• Tente se encontrar com seu cliente antes do ensaio, nem que seja para um café de dez minutos. Durante a conversa, observe os ângulos que o favoreçam e já comece a se preparar para o dia das fotos.
• Uma ótima maneira para se estudar direção é assistir aos reality shows sobre modelos.Americas’s Next Top Model, o mais famoso deles, tem um ensaio fotográfico em cada episódio.
• Tenha o costume de fazer autorretratos. Além de treinar a própria expressão corporal, estudar os movimentos do seu corpo te ajudará a aplicar técnicas de direção em outras pessoas.
• Durante a sessão de fotos, é importante saber ouvir sugestões, especialmente as vindas do fotografado. Para o conforto do modelo, siga-as, mesmo que não sejam muito boas. Depois, dê você outras sugestões. O diálogo é essencial.
• Se for fotografar alguém inexperiente, mostre de onde a luz está vindo e explique onde serão formadas as sombras. Parece simples, mas muitas fotos boas são perdidas porque o modelo estava virado para o lado errado.
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